O Teatro Popular de Osmar Rodrigues Cruz (O TPS de ORC)

Osmar Rodrigues Cruz foi o criador e diretor do Teatro Popular do Sesi ¹ – TPS – durante 40 anos. Essa instituição é singular na América Latina, única experiência vitoriosa para levar cultura, arte e educação a camadas menos favorecidas da sociedade e que não têm condições financeiras de ter acesso à produção do teatro comercial. Por intermédio de seu teatro popular, o TPS, com ingressos gratuitos, produzia espetáculos teatrais com profissionais de renome e apresentava textos clássicos e modernos para um público, na sua maioria, constituído por operários ², com casas lotadas todas as noites. Enquanto instituição, o Sesi é mantido pela arrecadação da própria indústria paulista. E, desse modo, sujeito a enfrentar dificuldades devido às crises econômicas pelas quais o país passa. A continuidade de seu trabalho, do TPS, portanto, deveu-se sobretudo à habilidade de seu fundador que sempre se empenhou no sentido de manter a instituição fiel aos seus propósitos, mesmo tendo de administrar um orçamento limitado por verbas escassas. O TPS foi formalmente criado em 1963, portanto, às vésperas do golpe que deu início à Ditadura Militar no Brasil em 31 de março de 1964. Seu principal objetivo era expor à população cultura, arte e educação de uma forma prazerosa, tendo como meta atingir um público não constituído pelas elites, mas sim um público que nunca antes havia sido incentivado a ver o teatro como forma de cultura e participação em decorrência de uma política que promovia alienação. O TPS teve de buscar meios para cumprir seus objetivos, a despeito dos interesses políticos que marcaram sua trajetória desde sua fundação, uma vez que a Ditadura Militar serviu-se dos mais variados métodos para sufocar qualquer tipo de participação política da população brasileira, valendo-se, inclusive, da oficialização da censura enquanto um instrumento de repressão. Apesar de todas as condições adversas à concretização de seus objetivos, o TPS buscou conscientizar os brasileiros da sua grandeza, expondo-os à realidade nacional, por intermédio da apresentação de autores nacionais, dos clássicos aos modernos, procurando incessantemente fazer do panorama da dramaturgia um lugar de reflexão da realidade nacional, ainda que tendo de criar meios para evitar a perseguição explícita de uma política de repressão, o que, seguramente, acabaria impedindo a continuidade do seu trabalho. ¹ Serviço Social da Indústria ² O TPS distribuía ingressos aos operários nas próprias fábricas Mesmo antes da fundação do TPS, seu fundador e diretor, enquanto diretor de teatro amador, sempre teve a preocupação de oferecer um trabalho de maior qualidade ao público e buscou se inteirar da literatura relativa a essa área, movido por sua curiosidade intelectual e científica e por seu espírito investigativo. Infelizmente, essa busca enfrentou uma escassez muito grande de material dessa natureza no Brasil, levando-o a recorrer à bibliografia estrangeira. Ao longo de 50 anos, Osmar Rodrigues Cruz reuniu um acervo raro que conta com mais de 20 mil exemplares (livros datados dos séculos XVII, XVIII e XIX, manuscritos, coleções numeradas, peças, revistas, etc.). Afastado da direção do TPS e aposentado por motivos políticos em 1990, seu diretor fundador viu que os objetivos da instituição que criou e dirigiu por 40 anos deixaram de ser uma prioridade para esse tipo de teatro. Produzindo, hoje, um trabalho muito mais centrado na promoção da própria indústria e preocupado em ocupar um espaço na mídia, o TPS atende mais aos interesses de uma camada da população constituída pela classe média, desviando-se, portanto, do objetivo primeiro que norteou sua própria criação. A trabalho teatral de criação do TPS, como de toda a trajetória de Osmar Rodrigues Cruz, foi registrado no livro Osmar Rodrigues Cruz – Uma Vida no Teatro pela Editora Hucitec e que recebeu a Bolsa Vitae de Artes em 1999.
Capa do livro Osmar Rodrigues Cruz – Uma Vida no Teatro

UMA VIDA, UMA OBRA: TEATRO POPULAR

Clovis Garcia Se alguém fixou um objetivo para sua vida e conseguiu realizá-lo, esse alguém foi Osmar Rodrigues Cruz. E esse objetivo foi tornar realidade um teatro popular, e o resultado foi o Teatro Popular do SESI, com seus mais de quarenta anos de existência dos quais mais de trinta sob a direção firme de Osmar. A expressão teatro popular sofre muitas interpretações. As mais habituais são: 1 – um teatro de baixo preço, tornado acessível à população de baixa renda. As campanhas de popularização do Teatro, oficiais ou oficiosas, seguem essa linha; 2 – um teatro que permita a todas as faixas da população acesso ao patrimônio cultural da humanidade, quer dizer, no caso do Teatro, o oferecimento das grandes obras teatrais ao povo; 3 – um teatro com uma dramaturgia comprometida com doutrinas sociais, com o grave problema de que, na maioria dos casos, a qualidade artística fica prejudicada pela dominância panfletária; 4 – finalmente, teatro popular seria o que o povo faz, os folguedos e autos populares. Osmar Rodrigues Cruz se apoiou nos dois primeiros significados, levando-os ao extremo: em lugar de baixo preço das entradas, adotou preço nenhum. Durante sua gestão, o Teatro Popular do SESI foi sempre gratuito, apesar de algumas objeções. O resultado foi que em quarenta anos, o Teatro Popular do SESI foi visto por quase sete milhões de pessoas, possivelmente um número recorde no Brasil, obtido por qualquer companhia estável. De acordo com pesquisa feita, dos freqüentadores dos espetáculos do SESI, 72% eram operários, e ainda, 17% estudantes e 3% funcionários públicos, isto é, o TPS atingiu realmente o povo, graças a firmeza do objetivo e a um perfeito serviço de distribuição de entradas. E quanto à qualidade, durante a gestão de Osmar, o repertório foi de alto nível artístico, seja composto pela dramaturgia nacional, seja pelos textos de grandes autores universais. Assim, durante a gestão de Osmar Rodrigues Cruz, iniciada em 1959, quando ainda o teatro do SESI era amador como Teatro Experimental, passando a profissional em 1963, agora como Teatro Popular do SESI, até 1992 ocasião em que a entidade resolveu reformular suas atividades teatrais, afastando Osmar por razões até hoje não muito claras, o TPS, com suas 30 encenações pelo elenco principal e 13 pelo elenco itinerante realizou uma obra monumental. Em qualquer país civilizado, o autor dessa extraordinária façanha, dedicando uma vida à realização de uma obra extraordinária, estaria com seu nome inscrito no panteon nacional.
Osmar e Flávio Império

Osmar e Flávio Império

Osmar, Plínio Marcos e Nelson Rodrigues

Osmar, Plínio Marcos e Nelson Rodrigues

Osmar, Plínio Marcos, Procópio Ferreira e elenco

Osmar, Plínio Marcos, Procópio Ferreira e elenco

Cronologia do Teatro Popular do SESI (TPS)

Montagens, produções e grupos itinerantes — 1963 a 1992

1963
CIDADE ASSASSINADA – Antônio Callado
1964
NOITES BRANCAS – Dostoievski
CAPRICHOS DO AMOR E DO ACASO – Marivaux — Prêmio APCT “Honra”
1965
A SAPATEIRA PRODIGIOSA – Garcia Lorca
1966
O AVARENTO – Molière
MANHÃS DE SOL – Oduvaldo Vianna
1967
O MILAGRE DE ANNIE SULLIVAN – Willian Gibson — recebeu todos os prêmios de 1969
1969
INTRIGA E AMOR – Schiller
O Milagre de Annie Sullivan — criação do Grupo Itinerante
1970
MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – Manoel A. de Almeida
NOITES BRANCAS – Grupo Itinerante (remontagem)
1971
SENHORA – José de Alencar (adaptação Sérgio Viotti)
CAPRICHOS DO AMOR E DO ACASO – Grupo Itinerante
1972
UM GRITO DE LIBERDADE – Sérgio Viotti
O PRIMO DA CALIFÓRNIA – Grupo Itinerante
1973
CAIU O MINISTÉRIO – França Júnior — Prêmio Molière
O MÉDICO À FORÇA – Grupo Itinerante
1974
LEONOR DE MENDONÇA – Gonçalves Dias
O BARÃO DA COTIA – Grupo Itinerante
1975
A MOSQUETA – Angelo Beolco — Grupo Itinerante
1976
O NOVIÇO – Martins Pena
GUERRAS DO ALECRIM E MANJERONA – Antônio José da Silva — Grupo Itinerante
1977
O POETA DA VILA E SEUS AMORES – Plínio Marcos — Prêmio Molière (Direção e Ator)
1978
TROCAS E TRAPAÇAS – Américo de Azevedo — Grupo Itinerante
1979
A FALECIDA – Nelson Rodrigues — presença do autor na estreia
1981
MADALENA SEDUZIDA E ABANDONADA – Grupo Itinerante
O SANTO MILAGROSO – Lauro Cesar Muniz
1983
COITADO DO ISIDORO – Grupo Itinerante
CHIQUINHA GONZAGA, Ó ABRE ALAS – Maria Adelaide Amaral (20 anos do TPS)
1984
SENHORA – remontagem do Grupo Itinerante
1985
O REI DO RISO – Luiz Carlos de Abreu
1986
MUITO BARULHO POR NADA – William Shakespeare (tradução José Rubens Siqueira)
1987
FEITIÇO – Oduvaldo Vianna
1988
O CASO DA CASA – José Rubens Siqueira
ONDE CANTA O SABIÁ – Gastão Tojeiro (25 anos do TPS)
1989–1991
CONFUSÃO NA CIDADE – Carlo Goldoni — grande sucesso de público
1992
O TIPO BRASILEIRO – França Júnior — Grupo Itinerante
Infantil
A ÁRVORE QUE ANDAVA – Oscar Von Pfuhl